sexta-feira, 10 de abril de 2009

Sobre as Maçãs

Feriado santo! Mais um feriado na boa terra brasilis, onde é sol o ano inteiro e tudo tem cores mais vivas! Feriados me deixam animados, me deixam descansados, me deixam despreocupados, me deixam mais felizes. Eventualmente, entetanto, feriados acabam, e tudo fica sem-graça outra vez. Mas oh, well, foi bom enquanto durou, certo?
E pra você? Foi bom pra você? :B

De volta à ativa, é hora de upar algo de interessante aqui. Ou tomara que seja. Se não for interessante, então vocês se deram mal. Assim sendo, cruzem seus dedos e torçam pelo melhor. Normalmente, pra mim, funciona - ontem eu torci pelo melhor, e meu time conseguiu uma importante vitória na Libertadores. Então, às vezes, vale a pena torcer.
Claro, se você for corinthiano, do not bother trying. Ou, sei lá, tente. Desencargo de consciência. :P

Sobre as Maçãs

Um pequeno apanhado de ideias

Você, meu colega de blog, que ora lê este texto. Este trecho, em especial. Imagine um elefante. Um daqueles africanos, com enormes orelhas de abano, pequenos rabicozinhos com final espanadorzado, trombas proeminentes, dentes de marfim e toneladas de peso. Imaginou-o? Imagine-o, agora, em uma típica vida familiar, com esposa, filhinhos e quem mais o convier, em uma piscina de lama, se divertindo nas tardes ociosas em um pequeno hábitat dentro da vasta savana africana.
Imaginou? Então esqueça tudo. Não é sobre elefantes que pretendo falar. :B

Voltemos ao título. Formule uma imagem mental de uma maçã. Uma maçã qualquer, a variedade que mais lhe apetecer. E pergunte-se: o que há neste fruto vermelho e do tamanho de um punho que atiça tanto a imaginação da boa raça humana? Por que a raça humana, em seu esplendor evolutivo (All heil mankind!) dedica tanto tempo de sua existência a venerar um fruto pomáceo tão simples como esse? Tipo, é completamente compreensível venerarmos o dinheiro, ou os cachorros, ou os Simpsons. Mas ahn... a maçã?
Não sabe do que estou falando? Experimente parar por alguns segundos e se perguntar quantas referências existem à imagem da maçã. E existem algumas referências. Algumas bastante conhecidas, devo dizer. Vocês também a conhecem, querem ver? Falemos do Éden.

Recordemos de Adão e Eva, os pirilampos humanos originais. Em algum tempo do passado remoto (mas não tão remoto quanto o tempo de Star Wars, que foi há muito, muito tempo), Deus inventou Adão. E depois, com as peças que restaram (hehe), inventou Eva. Viu Deus que era bom, blah blah blah. Bom, depois de deixar os nossos adoráveis ancestrais perambular pelo jardim do Éden felizes da vida, meio que baixou Hugo Chávez no nosso adorável ente Todo-Poderoso, e ele proibiu a Adão e Eva de comerem um magnífico pomar cheio de maçãs. O pomar ficava em uma área muito bonita (com acesso à Marginal Pinheiros, perto do shopping e com segurança 24 horas por dia), e as maçãs eram vermelhas e bonitas. Realmente vermelhas e bonitas. Daquelas que você acabou de colocar o olho, e já se imagina dando uma dentada nervosa na casca da maçã. Daquelas tão indecentes que parecem pay-per-view do Big Brother. Um negócio indecoroso.
Bom, Eva, nossa menina loirosa e feliz, foi eventualmente tapeada por uma serpente sapeca (que, em minha visão, falava com sotaque carioca) a comer a maçã vermelha e bonita. Deu uma dentada, gostou, apanhou umas maçãs, levou a seu partner, Adão, e foram os dois, desobedientes que eram, a comer maçãs. Eis que aparece Deus, que tinha ido dar uma voltinha rápida, e ele vê essa cena de desobediência direta às suas ordens. Oh, fuck.
Bom, rola um estresse básico, Deus se emputece colericamente, grita como um gorila revoltado, e expulsa nossos tetratetratetratetravós do Éden. Por causa de uma maçã. E por causa de toda a discórdia que acompanhou a maçã. Porque, com ela, os seres humanos deixaram de ser perfeitos. Aprenderam sobre o certo e o errado, e viraram pobres mortais. Em suma, eles tomaram a pílula vermelha do Matrix (que, se vocês pensarem, era vermelha em alusão à maçã).

A partir dessa história popular, meus queridos, a maçã passou a ser o símbolo do pecado da desobediência com Deus, o Mano que Manda. A simpática frutinha virou o estandarte do errado perante o Catolicismo (a religião monoteísta com tendências dominadoras, por excelência), e durante muito tempo a pobre frutinha, tadinha, sofreu de preconceito. Marginalizada pelos católicos medievais (povos sobre os quais já fiz diversas referências nestas páginas), a pobre maçã virou, associativamente, o símbolo do lascivo, do errado, do impublicável. E, não só isso, mas também o símbolo da abertura da humanidade para a razão, a sabedoria universal, o discernimento do certo e do errado. Em suma, tudo o que não era celeste e divino poderia ser representado e canalizado na imagem da maçã. Pesado isto, né?
Mas, tipo, o que a fruta vermelha fez pra merecer isso? Quer dizer, ao ler a Bíblia (e alguém que a leu mais profundamente do que o autor que vos escreve, por favor, me corrija se eu escrevi merda), você, caro leitor, notará que não há qualquer referência à maçã. Não é dito, na história do Éden e da expulsão, que Eva e Adão se saciaram com maçãs. O termo usado é "fruto proibido". Mas pode muito bem ser uma banana, um pêssego, uma laranja, um rabanete. E esse último traria consequências ainda piores, porque um rabanete não é um fruto, logo, não pode ser um fruto proibido. Mas isso não vem ao caso. O que nos apetece é que não está escrito que é a maçã que é má. Alguém criou uma livre-associação entre a maçã e o pecado, out of fucking nowhere!
Sabe-se, com certeza, que as primeiras associações livres entre maçãs e frutos proibidos nasceram na Renascência (logo, não houve preconceito contra a maçã na Id. Média, viram?). Os pintores renascentistas descobriram que eram muito bons pintando coisas, porque inventaram a perspectiva e outras técnicas fodonas de pintura. E eles eram contratados pela Igreja, pra pintar histórias católicas para os católicos. E, naturalmente, rolava a história de Adão e Eva, os pirilampos humanos originais. E na hora de pintar, nossos pintores renascentistas, por falta de melhor opção, escolheram a maçã. Há quem ache que é por influência da história das maçãs douradas no Jardim das Hespérides, uma história da mitologia grega, em que Hércules teve de fazer seu décimo-primeiro trabalho. Segundo a história, Hércules teve de correr até lá, roubar umas maçãs douradas e levar pra Hera, sua madrasta má. Com isso, a maçã do Éden teria a conotação de fruto roubado, de coisa proibida.
Ademais, em latim, maçã é malus. E pecado, em latim, é malum. Se você pluralizar as palavras, ainda, elas ficam iguais (mala). Logo, rolou uma conexão quasi-instantânea entre a maçã e o errado. Mas, vejam vocês, sem embasamento empírico! Foi por puro preconceito!!

Bom, a renascença, eventualmente, passou. A maçã voltou a ser uma fruta inofensiva, todo mundo comia, era aquela promiscuidade típica. Aí, veio Isaque, aquele levado da breca. Lembram-se de Isaac Newton? O rapaz, entre outras coisas, era filósofo, físico, matemático e, no fim da sua vida, se meteu em economia (o motivo da Europa ter passado um século sob o padrão-ouro, inclusive, se deveu a Newton, que influenciou a Inglaterra a usar o ouro como metal principal nos seus cofres).
Conta a história que o inglês estava de boa na lagoa, em uma pequena cidade no condado de Lincoln, leste da Inglaterra, meditando sobre os planetas e essas coisas astronômicas do espaço sideral. Aí, abaixo de uma macieira, ele havia sentado para pensar sobre as coisas que ele estava pensando. Quando uma pequena maçã maturou, ela caiu da árvore, e acertou a cabeça de nosso amigo inglês inventivo. Este, ao levar a dose de maçã na cuca (e após ofender um bocado a árvore e a dor de cabeça) considerou que, afinal, ele havia descoberto a resposta para as dúvidas que ele estava procurando. E ele formou, pela primeira vez, a ideia da gravidade! E nasceu a Lei da Gravitação Universal. E daí pra frente, Newtinho meio que explicou toda a Física que aprendemos na escola. A Física Clássica de Newton. Por causa de uma maçã.
A Física de Newton era, agora, mais um capítulo na eterna luta ciência-igreja. Só que esse capítulo era tenso, crianças, porque era a primeira vez que a ciência tentava explicar as leis do Universo com tantas regras irrevogáveis e indubitáveis. Em termos miúdos, Newton tentou explicar a lei do Universo e, sabemos nós, a lei do Universo era, até aqui, propriedade de Deus, o Todo-Poderoso. Newton tentou dedar pra todo mundo como o Universo funcionava!! Graças à maçã, mais uma vez, os humanos adquiriram sabedoria e capacidade de duvidar do divino. Sem querer, mais uma vez, a maçã era símbolo do lógico e do pecado contra Deus. E tudo o que a pobre maçã queria era ser saborosa... =/

Graças a Isaque, a maçã se transformou no símbolo não-oficial da ciência. Em um dos anos recentes, o manual da FUVEST (aquele vestibular maligno que seleciona os adolescentes para a Universidade de São Paulo, conhecem?) foi publicado com uma maçã redondinha e vermelha na capa. O símbolo, por excelência, da Física Moderna, e do conhecimento nascido em todo o século XIX e XX. Sim, porque não há como negar que muito do que a ciência achou nos 200 recentes anos se deve ao Isaque, o preguiçoso fidalgo inglês, que dormia preguiçosamente em Lincolnshire. E, por livre-associação, se deve também à imagem da maçã. A vermelha e redondinha fruta pomácea. Que livrou a humanidade das trevas e do não-conhecimento. Bonito, né?
Seja como for - mais do que uma fruta, a maçã tem uma imagem transcedente à ela. É como, por exemplo, o leão, cuja imagem é muito mais forte e marcante do que o animal em si. Nunca houve leões na Inglaterra, mas o Reino da Inglaterra utilizava 3 leões estilizados em sua bandeira, pra simbolizar a alta hierarquia do leão na vida selvagem (o leão, after all, é rei das selvas). Não existem países cujas bandeiras fizessem referências à maçãs, mas a fruta vermelha e redonda tem uma imagem forte, marcante. Talvez por ser vermelha (uma cor marcante), por ser gostosa, por ser facilmente reconhecível, a maçã é uma fruta muito famosa. Mesmo quem não gosta de maçã lida sem problemas com a imagem dela, consegue fazer referências simples à fruta e ao seu legado histórico.

A partir daí, o século XX viu a maçã ganhar ainda mais conotações. Por exemplo, a maçã do Sílvio Santos, do programa Tentação (não sei se vou ou se fico...). Ou a Apple Inc., cujo nome adveio da maçã que caiu na cabeça de Newtinho. Ou as maçãs do amor, que simbolizariam o amor, e que nada mais é do que uma tentativa de purificar o pecado da safadeza (hohohoho...).
As maçãs não são mais frutas inocentes. Não são mais pequenos pseudofrutos avermelhados provenientes de árvores da família rosaceae. Nope. São frutas transcedentais. Simbolizam o errado, o pecado, o maligno, a discórdia. E simbolizam a sabedoria livre da religião, o pensamento crítico, o científico. Estranho, né, como uma frutinha de 8cm de diâmetro conseguiu tanta associação à sua imagem...
O que me faz pensar: seria isso um golpe publicitário? Será que houve uma firma que vendia maçãs, e que patrocinou os estudos de Newtinho, desde que ele dissesse que foi tudo culpa de uma maldita maçã? Assim, as pessoas comeriam mais maçãs, a imagem da maçã ficaria pra sempre grudada na civilização? Sim, porque as pessoas adoram discórdias. E uma discórdia que nasceu graças a uma frutinha pequenininha e tão bonitinha e suculenta, então... Fica bem mais fácil vender maçã quando todo mundo sabe que, graças a ela, temos iPods. Que é da Apple, também. Yes, as maçãs vermelhas e docinhas parecem inofensivas, mas dominam boa parte do mundo ocidental. Você convive com maçãs mais tempo do que percebe, sabia disso?
Pense nisso quando comer uma maçã. E aproveite, e vá comer uma agora. Além de tudo, elas são muito saudáveis. E gostosas, também. =D

Ouvindo:
The Shock of the Lightning
Oasis
Dig Out Your Soul (2008)

domingo, 5 de abril de 2009

Zero a Zero


RENASÇA, INOMINATIVO!! :D


Boas noites boas noites para os senhores! É hora de eu tirar a poeira desta minha gaveta de textos despretensiosos, e retornar à fina arte da escrita! Sim, escrever é uma arte fina e requintada, não acham os senhores?

Mas eu não sou requintado. E aí dá nisso, esse monte de bobagens. Can't help it :P

A primeira da nova leva de postagens inominatívicas (e isso existe?) está saindo. Vejamos se sai tão ruim quanto os outros, ou se eu pioro. Huah!

Contos do Cotidiano
XI - Zero a Zero

Para Alex, sexta-feira à noite prometia. Tanto que ele acordou cedo, naquele dia, por causa da ansiedade, mas descobriu que não adianta nada acordar mais cedo; o relógio continua andando na mesma. Às vezes, um pouco mais devagar, até, só pra fazer sofrer. Hehe.
Havia duas semanas, nosso amigo havia ido na balada da faculdade de um amigo dele. Balada vai, balada vem, conheceu a amiga de uma amiga de um amigo do amigo dele. Os dois se conversaram, descobriram que gostavam de filmes hollywoodianos e de música brasileira (e, embora Alex nunca fosse admitir em público, ele descobriu que gostava de Britney tanto quanto a moça). "Ah, pegaê meu MSN" (guardanapo sendo rabiscado). "Ah, eu te adiciono depois no meu orkut". É, rolou uma química. Rolou uns chutes a gol. Mas o placar foi zero a zero praquela noite. Não faz mal, o campeonato ainda não terminou. Ainda rolariam outras chances.
Nas duas semanas seguintes à baladinha, eles descobriram mais algumas afinidades. Gostavam também de Outback e de filmes do Will Smith. "Ah, tem um filme do Will que eu ainda não vi, e que está em cartaz. Quer ir? Podíamos jantar no Outback depois, né?". "Ah, boa ideia, vamos sim". Nada mal pra um primeiro encontro, hein? Conseguiu um cinema e um jantar. Ah, aquela noite, certeza, seria goleada...

Não é de se espantar que nosso menino Alex estivesse animado. Depois de ouvir uns CDs e estudar umas matérias da sua faculdade, resolveu dar uma volta. Viu uns amigos, fez a cruzadinha do Estado de S. Paulo que vivia abandonada no saguão do seu edifício. Lá pela uma da tarde, deu-lhe fome. Como seus pais trabalhavam, ele almoçava sozinho. Ele subiu pro seu apartamento, deu uma re-esquentada na janta de ontem (o popular soborô), almoçou male-male e ligou a TV pra ver se tinha algo que o distraísse até o filme. Pra variar, umas zapeadas, mas nada rolou. Ele resolveu ligar o seu vídeo-game, e colocou um Winning Eleven. Depois de 3 derrotas (incluindo uma espetacular goleada com direito a gol contra), ele achou melhor desligar o jogo, porque aquilo prenunciava má-sorte. Não que ele acreditasse. Mas nunca se sabe. É melhor não dar sorte pro azar, certo? Nunca se sabe.
Deu uma navegada na internet. Encontrou a sua companhia, Gabriela, online em um programa qualquer de conversação instantânea. Checaram o horário, recombinaram o ponto de encontro, conversaram aleatoreidades. É, nada parecia dar errado.

Lá pelas seis, de banho devidamente tomado e devidamente perfumado, achou melhor embarcar rumo à diversão. Entrou na estação de metrô que servia o bairro em que morava (o sortudo Alex calhou de morar em um bairro com linha de metrô), tomou um trem lotado e foi sentido cidade. Acontecem, aí, aquelas intempéries que sempre ocorrem em viagens. Coisas como estações apinhadas, folgados enormes que não saem da frente das portas, escadas rolantes quebradas... Só que, tudo de uma vez. Desgraça pouca é bobagem, hehe. Nosso amigo Alex chegou, naturalmente, atrasado. Mas não faz mal, ele havia combinado de se encontrarem cedo no shopping pra evitar que pequenos atrasos os impedissem de ver o filme. E, ademais, bem ele sabia que Gabriela iria atrasar. Mulheres sempre atrasam. É meio que um charme delas. E assim, ele chegou no shopping, foi ao ponto de encontro, não viu ninguém, e se ocupou em ver vitrines de livrarias e de lojas de jogos.
Seu telefone chacoalhou, então, por causa de uma mensagem. Sua companhia, Gabriela, o esperava no ponto de encontro. Lá ele foi, e lá ele a viu. Ele notou que ela estava bastante bonita. Ele se congratulou, eles se cumprimentaram, e foram à bilheteria comprar os tíquetes para o filme. Ah, aparentemente, nada daria errado. Alex sabia que era errado comemorar vitória antes dos noventa minutos, mas ele, ao chegar no guichê e encomendar os dois ingressos (como bom cavalheiro, ele pagou a entrada de sua companhia), pensou que não podia dar nada mais de errado. Tudo terminaria bem, agora.

Ou quase.

"ALEXANDRE, SEU BOIOLA!". Alex estacou ao ouvir seu nome, e virou pra seguir a origem do berro escandaloso e da ofensa gratuita. Ele terminou de virar o pescoço, e um abraço desajeitado turva sua visão. Dois murros nas costas, e um amigável "E aí, seu bosta!" fazem o Alex reconhecer o perpretador das frases. Um amigo seu, Ricardo, que o encontrou (contra todas as probabilidades, como Murphy gosta) na fila do guichê, e que tinha gritado o nome dele várias vezes. Mas Alex estava tão animado com a companhia que nem ouviu o que vinha de fora. "Só virou pra ver depois que eu chamei você de boiola, né? Seu são-paulino bambi de merda. Tinha que ser um queima-rosca, mesmo! Huahuahuahua!". De trás de Ricardo, mais três amigos aparecem, cumprimentando nosso amigo, dando tapas nas costas, abraços desajeitados. Alex, nosso amigo, estava estupefato, é claro. Tudo o que ele menos queria agora era que empatassem o jogo dele. É, essa história de comemorar vitória antes dos noventa minutos...
Encabulado, apresentou Gabriela aos amigos. A educada menina lhes disse oi, eles responderam. Ricardinho, o nosso amigo sem-noção, não perdoou: "Namorando, então, Alex? Caramba, que sorte, a mina é bonita mesmo, hein?". Sem jeito, Alex mal conseguiu balbuciar uma resposta. Restringiu-se a rir amistosamente, enquanto digitava a senha do seu cartão na maquininha da menina do caixa do cinema.
"Ah, então vocês vão ao cinema!", constatou Ricardinho, mestre em notar o óbvio. "E que filme é?". A menina respondeu, dado o grau elevado de vergonha que Alex estava. "Vamos ver o filme do Will Smith, sabe?". E aqui, a noite, que já estava perdida, acabou de ficar tenebrosa. "Pô, Carlos, bem que a gente podia ir ver esse filme com o Alex, né? Eu não tenho nada pra fazer hoje à noite, mesmo...". Os amigos concordaram. Entraram na fila pra comprar seus ingressos. E Alex estava considerando, seriamente, se utilizar de magia negra avançada para desaparecer. Ah, se ele tivesse ido pra Hogwarts...

Vencido, lá foi ele pro cinema. Sentou-se, claro, ao lado da Gabriela, mas seus amigos sentaram do outro lado. Ricardinho, óbvio, preferiu se sentar do outro lado do Alex.
Eu posso estar enganado a respeito de vocês, meus amigos homens, mas acredito que a última coisa que vocês desejam, ao estarem em estágio de flerte aberto com uma moça, é que seus amigos escrotos façam a menina perceber o quão escroto você é. E comecem a contar, por exemplo, da vez em que você passou mal na balada e vomitou no cara que fazia coquetéis. Ou da vez em que caiu na piscina com o celular dentro do bolso, porque estava muito bêbado. Ou da sua fama na escola de vagabundo e matador de aula. Ah, sim, Alex estava sumindo em sua poltrona. Até que o filme começou. E Alex deu graças a Deus porque a sessão se iniciava. Pelo menos, ele não passaria mais vergonha. Mas que tudo tendia pra um zero a zero... Ele se vira pra engatar conversa com a Gabriela, que estava dando risadas das histórias do Ricardo desde que entraram na sala do filme. Mas ela devolveu um "shhhhh". Ai, meu coração...
Além dos amigos que gostam de empatar, tem os amigos que você não pode convidar pra ir ao cinema contigo, porque eles preferem incomodar você com piadinhas ridículas ao ver o infeliz do filme. E o Ricardinho, esse guri levado, era uma soma dessas duas classes. De modo que ele não deu paz a Alex, nem no meio do filme. Coisas como terminar as falas de um personagem com piadinhas sem graça, se lembrar de uma piada com um papagaio e um argentino, começar a jogar pipoca nos casais que estavam nos finalmentes, rir alegremente de piadinhas do filme... Alex, que se sentia mais em uma tortura do que em uma sala de cinema, se perguntava o que ele fez de errado para os Céus. Gabriela, a traidora, ria gostosamente das travessuras do Ricardinho. Alex estava sozinho. Poverello, poverello...

Zero a zero. A frase ecoava na cabeça de Alex, enquanto eles saíam da sala de cinema. Dos seis que tinham entrado na sessão, cinco adoraram o filme, e faziam piadas infelizes e riam mais ainda. Alex, educado, tensionava um sorriso, mas estava desgostoso. Quase como tomar leite azedo, sabe? Como colocar pimenta no pastel quando você jurou que aquele tubo vermelho era catchup.
Ao voltarem ao shopping, eles se encontraram na praça de alimentação. Um dos meninos emendou "E aí, alguém come?". Alex notou uma última chance. "Ah, não, cara, vou jantar fora com a Gabriela, thanks". "Opa!", disse Ricardinho. "Onde?". "Ah, vamos ao Outback". "Posso ir também, gente? Estou com fome, e faz tempo que não vou lá. Vamos, macacada?" PQP, que cara mais inconveniente. Parece chiclete que grudou no cabelo. Saco.
Chegaram no Outback. Pra Alex, a janta, que poderia ser a redenção, só foi mais do mesmo. É como descobrir que o para-quedas reserva também falhou. E lá vem o chão, se aproximando da nossa cara.
Decidido a perder o jogo com nobreza, ele engoliu a infelicidade, e resolveu aproveitar. Jantaram juntos uma carne de porco apimentada (que custou ao Alex quase um litro de Coca-Cola, porque ele tinha baixa tolerância à pimenta), falaram mais algumas ogrices da vida pregressa de Alex, contaram da baranga que ele pegou no segundo ano só pra não zerar em uma festa...

Zero a zero, pensava Alex, quando deu tchau pros seus "amigos", sob o pretexto de deixar Gabriela no ponto de ônibus, e aguardar o comboio com ela. Ensaiou um último ataque. Um gol aos 49', pra somar os 3 pontos. Mas veio o golpe da redenção. "Aquele seu amigo, o Ricardo... Ele é bem engraçado, né? Escuta, vai rolar uma festa lá na minha faculadade sexta que vem. Convida ele com você, se você for, pode ser?". E ela embarcou no ônibus. Era o apito final.
Afinal de contas, saiu um gol na prorrogação. Um a zero. Mas pro time errado. Foi, aliás, o mesmo placar de uma das partidas que ele havia perdido no vídeo-game, mais cedo. Se foi coincidência, nunca se sabe. Mas era melhor ter ficado no zero a zero, mesmo.
E Alex voltou pra casa mais cedo aquele dia. Havia sido eliminado. :P

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E com isso, retorna o Inominativo! Seja bem-vindo de volta, meu querido blog. Senti sua falta. :D
Algumas considerações acerca desse retorno, entretanto:
* Como eu não tenho mais tempo livre entre as semanas, é muito provável que eu só consiga escrever algo aqui aos sábados e domingos. Mas eu farei o máximo para que eu poste pelo menos uma vez por semana. Se eu não puder, por favor, me perdoem.
* Se não for pedir demais, comentem sobre o que acharam! Eu quero mesmo mesmo saber o que vocês acham sobre meus novos textos. Sabe, boa parte do meu interstício foi porque eu sempre tive receio de sair algo ruim, que não mantivesse o nível anterior. E preciso saber da opinião de vocês, né? Agradeceria se o fizessem. =)
* Descobri, ainda recentemente, que meu antigo blog, O Mal do Século, não existe mais no servidor do Blogger.com.br. Apesar de fazer mais de 2 anos desde que ele deixou de existir, fiquei bastante chateado em saber disso. Eu gostava bastante de lá. Mas não faz mal, o Inominativo é mais legal, certo? :P
* Tomara que eu não torne a desistir do meu blog. Ainda nutro desejos secretos de escrever um livro, vendê-lo como água, ficar muito rico e passar o resto da vida preguiçoso e feliz. Hehe.

Bem-vindos de volta, leitores. Senti a falta de vocês.

We Started Nothing
The Ting Tings
We Started Nothing (2008)